Blog de hideraldo.montenegro


17/05/2009


Gustave Doré

 

 

 

RASTROS

 

Vou me deixando
aos poucos
- trocando a pele
e cada vez
rastejo mais
e não rejuvenesço

Escrito por hideraldo montenegro às 10h51
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Flagrante

Rodin

 

FLAGRANTE

 

Um homem sentado
num banheiro
perde a pose e a dignidade
no cheiro

Escrito por hideraldo montenegro às 10h45
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Epitáfio

Matriz da Igreja Católica de Moreno - PE

 

EPITÁFIO

 

 

Terra, minha terra
eis que me devolvo:
tua poesia, teu ovo.

 

 

Devolvo-te os sorrisos escrotos
meus sonhos, meus brotos
minhas esperanças, meus mortos
e, agora, o meu inútil corpo

 

 

Devolvo-te o cheiro
destes eucaliptos que acenam
despedidas e boas vindas
aos filhos errantes, retirantes
nesta ilha latifundiária
e agreste de oportunidades
e sonhos delirantes

 

 

Devolvo-te tuas verdes colinas
o Societé, a Praça da Bandeira
as rochas, insensíveis, indiferentes
as Sevis, as Brandinas
os servis, a falsidade,
a dor de dente
o dinheiro pouco
para pagar a cantina
teu odor, tua latrina
o futuro e o presente

 

 

Devolvo-te o Poço da Nega
o schistosoma
a Travessa da União
a política coma
o engenho, o mel
e a ausência do pão

 

 

Devolvo-te o peito,
o sangue derretido, o veio
o clamor, o povo sofrido
o cordão umbilical, o pleito

 

 

Devolvo-te teus governantes
que fingem festas, festivais
votos e sorrisos bacanais
embora deixem deserdados
os irmãos natais

 

 

Devolvo-te o teu povo
que abre-se fabril
a outros abraços operários
- cicatriz anil
tecida em pele, pavio

 

 

Devolvo-te minhas noites,
meus açoites, o salário canavial,
a hipocrisia, a água batismal,
a pia, teu vazio cultural
teu sangue, teu corpo
tua gente, teu sal

 

 

Devolvo-te os puteiros
a tua falta de perspectiva,
e a pátria amada sepultada
pela enxada do coveiro
o grito incontido
o escritor, o tinteiro

 

 

Devolvo-te tudo
exceto tua moral
Belge Bresiliene
pacífica, morenense
e teu involuntário
abraço final
- cana de açúcar
teu bem, teu mal

 

 

A Terra dos Eucaliptos
finalmente receptiva
e acolhedora
abre a sua boca voraz
para me receber
quando não estou
mais nem aí
e não quero saber

Escrito por hideraldo montenegro às 10h05
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

09/05/2009


 

 

 

CICATRIZ

 

 

para Graça Graúna

 

 

Solano sol
de cada manhã
a cor
do sol
doura a pele
de liberdade
a cada passo
a África
colada
à sola
da caminhada
é asa

 

 


Solano sol
poesia e rouxinol
canto da manhã
na cor
desterro e dor
de uma pátria
colada à sola
da caminhada
a cadência
marca
a fala
e fertiliza o chão
por onde a África
passa

 

 


Solano sol
da fala
a cor é flor
na marca
a pele
aberta
desabrocha o sorriso
na dor
como uma flor
nasce
no asfalto
como um assalto
um sobressalto
dos pés
na caminhada
que a pele
livre
carregada de sol
fez da cultura
humana
beija-flor

 

 

 

Solano Trindade nasceu no bairro de São José (Recife-PE),

em 24 de julho de 1908. Filho do sapateiro Manuel Abílio

e da quituteira Emerenciana, mais conhecida como Merença.

Ele foi pintor, teatrólogo, folclorista, ator e, sobretudo,

poeta da resistência negra. Em 1936, fundou a Frente Negra

Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-brasileiro.

Escrito por hideraldo montenegro às 13h01
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Demasiado

para Hideraldo Montenegro

 

 

humano
é poder apalpar o universo,
ainda que de longe
e sem fronteiras.



Consciente desta possibilidade,
o poeta expõe a tatuagem da solidão
contida em seu silêncio.

Graça Graúna* -

Escritora, Professora universitária

na área de Literaturas de Língua Portuguesa

e Direitos Humanos.

Escrito por hideraldo montenegro às 12h54
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

A Graça Nossa

 

 

 

A GRAÇA NOSSA*

 

Mas, que graça há se uma graúna não cantar?
Canta, Graça, canta
que estamos aqui para te escutar
afinal, o canto é de Graça.

 

 

Canta a terra, os índios, os humildes
Canta o sertão, a zona da mata, a beira-mar

 

Canta, Graúna, canta que estamos aqui para te escutar.

 

Canta da injustiça as dores
Canta a vida, as flores, a alegria, os amores
canta porque não há graça se uma graúna não cantar

 

Canta, Graça, canta que estamos aqui para te escutar.



Canta, Graúna, canta que teu canto é libertador
e é de graça cantar

 

Graça Graúna* - Escritora, Professora universitária na área de Literaturas de Língua Portuguesa e Direitos Humanos.

Escrito por hideraldo montenegro às 12h26
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

03/05/2009


Destino


Caravaggio

 

 


DESTINO

 


Deus vai se construindo
todos os dias nos homens
Deus vai se despertando
todas as horas nos homens
Deus vai se abrindo
todos os momentos nos homens
Deus vai se divinizando
todas as existências nos homens
E os homens vão todos os dias
se amedrontando com esta morte diária

Escrito por hideraldo montenegro às 19h59
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Luz


Eliseu Visconti

 


LUZ

 

 

Debruço sobre a manhã
como escutasse realejo

 

 

E seu sorriso cai
no fim da tarde
como chuva

 

 

O sol atrás das nuvens
continua a caminhada
luminosa
apesar das tempestades

-Molho os pés

 

 

Tento cumplicidades
mas, o caminhar será sempre
solitário
-sol em direção
ao centro

 

 

As pessoas são espelhos
d'alma
-único ponto
de encontro
desta solidão

Escrito por hideraldo montenegro às 19h51
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

Perfil



Meu perfil
BRASIL, Nordeste, JABOATAO DOS GUARARAPES, BARRA DE JANGADA, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, Arte e cultura, Livros
MSN -

Histórico