
Gustave Doré
RASTROS
Vou me deixando
aos poucos
- trocando a pele
e cada vez
rastejo mais
e não rejuvenesço

Gustave Doré
RASTROS
Vou me deixando
aos poucos
- trocando a pele
e cada vez
rastejo mais
e não rejuvenesço

Rodin
FLAGRANTE
Um homem sentado
num banheiro
perde a pose e a dignidade
no cheiro

Matriz da Igreja Católica de Moreno - PE
EPITÁFIO
Terra, minha terra
eis que me devolvo:
tua poesia, teu ovo.
Devolvo-te os sorrisos escrotos
meus sonhos, meus brotos
minhas esperanças, meus mortos
e, agora, o meu inútil corpo
Devolvo-te o cheiro
destes eucaliptos que acenam
despedidas e boas vindas
aos filhos errantes, retirantes
nesta ilha latifundiária
e agreste de oportunidades
e sonhos delirantes
Devolvo-te tuas verdes colinas
o Societé, a Praça da Bandeira
as rochas, insensíveis, indiferentes
as Sevis, as Brandinas
os servis, a falsidade,
a dor de dente
o dinheiro pouco
para pagar a cantina
teu odor, tua latrina
o futuro e o presente
Devolvo-te o Poço da Nega
o schistosoma
a Travessa da União
a política coma
o engenho, o mel
e a ausência do pão
Devolvo-te o peito,
o sangue derretido, o veio
o clamor, o povo sofrido
o cordão umbilical, o pleito
Devolvo-te teus governantes
que fingem festas, festivais
votos e sorrisos bacanais
embora deixem deserdados
os irmãos natais
Devolvo-te o teu povo
que abre-se fabril
a outros abraços operários
- cicatriz anil
tecida em pele, pavio
Devolvo-te minhas noites,
meus açoites, o salário canavial,
a hipocrisia, a água batismal,
a pia, teu vazio cultural
teu sangue, teu corpo
tua gente, teu sal
Devolvo-te os puteiros
a tua falta de perspectiva,
e a pátria amada sepultada
pela enxada do coveiro
o grito incontido
o escritor, o tinteiro
Devolvo-te tudo
exceto tua moral
Belge Bresiliene
pacífica, morenense
e teu involuntário
abraço final
- cana de açúcar
teu bem, teu mal
A Terra dos Eucaliptos
finalmente receptiva
e acolhedora
abre a sua boca voraz
para me receber
quando não estou
mais nem aí
e não quero saber
CICATRIZ
para Graça Graúna
Solano sol
de cada manhã
a cor
do sol
doura a pele
de liberdade
a cada passo
a África
colada
à sola
da caminhada
é asa
Solano sol
poesia e rouxinol
canto da manhã
na cor
desterro e dor
de uma pátria
colada à sola
da caminhada
a cadência
marca
a fala
e fertiliza o chão
por onde a África
passa
Solano sol
da fala
a cor é flor
na marca
a pele
aberta
desabrocha o sorriso
na dor
como uma flor
nasce
no asfalto
como um assalto
um sobressalto
dos pés
na caminhada
que a pele
livre
carregada de sol
fez da cultura
humana
beija-flor
Solano Trindade nasceu no bairro de São José (Recife-PE),
em 24 de julho de 1908. Filho do sapateiro Manuel Abílio
e da quituteira Emerenciana, mais conhecida como Merença.
Ele foi pintor, teatrólogo, folclorista, ator e, sobretudo,
poeta da resistência negra. Em 1936, fundou a Frente Negra
Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-brasileiro.

Demasiado
para Hideraldo Montenegro
humano
é poder apalpar o universo,
ainda que de longe
e sem fronteiras.
Consciente desta possibilidade,
o poeta expõe a tatuagem da solidão
contida em seu silêncio.
Escritora, Professora universitária
na área de Literaturas de Língua Portuguesa
e Direitos Humanos.

A GRAÇA NOSSA*
Mas, que graça há se uma graúna não cantar?
Canta, Graça, canta
que estamos aqui para te escutar
afinal, o canto é de Graça.
Canta a terra, os índios, os humildes
Canta o sertão, a zona da mata, a beira-mar
Canta, Graúna, canta que estamos aqui para te escutar.
Canta da injustiça as dores
Canta a vida, as flores, a alegria, os amores
canta porque não há graça se uma graúna não cantar
Canta, Graça, canta que estamos aqui para te escutar.
Canta, Graúna, canta que teu canto é libertador
e é de graça cantar
Caravaggio
DESTINO
Deus vai se construindo
todos os dias nos homens
Deus vai se despertando
todas as horas nos homens
Deus vai se abrindo
todos os momentos nos homens
Deus vai se divinizando
todas as existências nos homens
E os homens vão todos os dias
se amedrontando com esta morte diária

Eliseu Visconti
LUZ
Debruço sobre a manhã
como escutasse realejo
E seu sorriso cai
no fim da tarde
como chuva
O sol atrás das nuvens
continua a caminhada
luminosa
apesar das tempestades
-Molho os pés
Tento cumplicidades
mas, o caminhar será sempre
solitário
-sol em direção
ao centro
As pessoas são espelhos
d'alma
-único ponto
de encontro
desta solidão


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BRASIL, Nordeste, JABOATAO DOS GUARARAPES, BARRA DE JANGADA, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, Arte e cultura, Livros
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